13.3.07

Alone she cries home

Ataque de Asma ou não, lá foi em marcha, sem correr, e em quinze minutos fez um percurso que lhe costuma dobrar o tempo em outras circunstâncias. Chorou até casa. Pergunta-se porque a escolhera como refúgio. É simples: estava frio e ela era o único conforto num dia de chuva. Essas mil agulhas por segundo que lhe molhavam a cara turvavam-se no sal das lágrimas. Mas nunca, por um segundo que fosse, baixou a cara em remorso ou pena de si. Sabia o caminho que tinha de levar, não havia dúvidas que era a direcção certa. Chorar era soltar a raiva, era decidir o futuro. Ia prometendo-se não voltar a encarar a noite escura por tão longo tempo sem p’ra quem falar.

1.3.07

Quero ser reciclada

Quando eu morrer, não me enterrem. Não me queimem, não me lancem ao mar, não me comam. Eu quero ser útil. Se não for agora, que seja quando deixar de pensar. Se não avariar nenhum órgão do corpo, incluindo a pele, quero ser a visão de um cego, a audição de um surdo, a voz de um mudo, o toque de um maneta, o andar de um perneta, o falar de alguém sem cotovelos, o beijar de alguém sem lábios. Estão autorizados e são obrigados a rasgar-me a pele do corpo, a separar cada músculo, a arrancar-me cada órgão se for para lhe dar um fim melhor. E que quem os reutilizar tenha mil vezes mais sorte, amor e saúde do que eles me deram a mim. Devo avisar que sou de pulmões fracos e nariz pingão. Teimam em não me deixar respirar, talvez seja assim que eu venha a morrer. Daí que não faça sentido usá-los. Fora isso, podem tirar-me os ossos, os dentes, mesmo as unhas, se assim quiserem. Não quero ir p'ra debaixo da terra, tenho nojo a necrófagos, especialmente quando são insectos que andam debaixo da terra. Não quero ser incinerada, apesar de gostar do calor. É desperdício de corpo. Reutilizem-me, aproveitem-me, reciclem-me.