31.8.07

Silver 23.04.2006 - 01.08.2007

Uns dias depois da notícia, perdurava a sensação de ainda não estar na dimensão correcta. Queria que houvesse um universo paralelo em que ainda o teria a correr pela casa, o seu pêlo prateado a reflectir a sua inocência, pobre bicho. As saudades alternam com a raiva pelo carro que não travou a tempo. Tudo para esconder o sentimento de culpa. A primeira vez que as suas almofadinhas cinzentas experimentaram o alcatrão preto e quente significou a sua morte. Imediata -- pelo que foi testemunhado. Desde que soube que só pegar no seu corpo jovem, mole e macio me poderia assegurar que não o teria de volta na minha cadeira, a dormir ao sol da janela, a fugir da prisão dos meus braços. Tão pouco estive com ele e já tantas memórias nos uniam. A mim, a ele e à família, à casa também. Por ser tão preso a isso tudo se foi, desesperado e assustado com a nossa ausência. A comida na taça não lhe trazia calor nem carinho. Por ter sido tão ingénuo toda a sua vida de um ano, três meses e mais qualquer coisinha, nos custa tanto que o tivessemos deixado sem a dose de atenção necessária. Não acrescenta só mais uma cruz de vítimas na estrada. Ele era mais um elemento do agregado familiar. Resta-nos a sua imagem. Àquele gato que eu queria encontrar e acabou por vir ter a uma gaveta bem perto de mim e agora é uma fotografia numa moldura.