14.4.08

Quando escreves um texto p’ra mim? Quando me agradeces por ter limpado os destroços dos teus atentados? Quando reparas que eu me dediquei ao que tu abandonaste? Quando reparas que eu que estou aqui, e que respondo aos teus súbitos interesses de quando em quando, também gostava que te sacrificasses um pouco por mim? Quando percebes que quando dizes ‘passar tempo comigo’ p’ra mim não significa nada? Porque eu te perdi. E cada vez mais te perco mais para sempre? Quando percebes que agora és dois? Quando percebes que nunca mais serás quem eu conheci? Quando percebes que és outra pessoa e não podes voltar ao passado? Que não poderemos ter o que tínhamos? Nunca, nem por uma noite. Quando vês que onde passas só fazes merda? Que o teu orgulho te transcende? Quando percebes que não sabes o que fazes? Quando percebes que és o amor e a paixão e eu sou a amizade? Quando percebes que eu limpei as lágrimas que provocaste? Sabes o que fiz por ti? Ou tentei fazer? O que fizeste tu por mim? Por deixares merda p’ra trás, por criares crateras à minha volta, não te vejo mais. Também porque não rodo em tua volta. Também porque vou aonde preciso, quando quero, se me apetecer. Tu não vens. Porque tens vergonha. Não. Não queres admitir que não soubeste resolver. Que não olhas p’ra trás. Porque p’ra frente é que é o caminho. Oxalá, para teu bem. Eu sou o teu varredor. Tu és o camião TIR. Passas, abalas meio mundo, arrastas outro meio. Tu és o furacão. Eu limpo. Eu suavizo. Eu recupero. Tu não me vês. Não com olhos de ver, nem coração de sentir. Tu vives. Eu sobrevivo. Tu tens. Eu sonho.

Não é justo p'ra esquerda ser torta

Esgotei o lado direito. Sinto-o pesar-me, como se já se quisesse reformar. Apetece-me enfiar a mão dentro do ouvido e puxar de lá o que me aflige. Afinal, o que tem o lado direito de especial? Porque trabalhamos automaticamente o lado direito, se o lado esquerdo interessa mais? É do lado esquerdo que temos o coração, a única parte do corpo que pende mais para um lado. Quero escrever, digitar, desenhar, pegar, empurrar, puxar, tudo com a mão esquerda. Preguiçosa, não faz nada. E esta pressão que dá cabo por mim, simplesmente por existir. Por estar lá. Cá. Isto não tem conotação metafórica absolutamente nenhuma. Estou a escrever o que sinto literalmente, não como de costume escrevo, inventando imagens e comparando-as comigo. Avariei do lado direito.