27.10.09
Pedintes ao pequeno-almoço
Vens ter comigo na rua e falas-me como se me conhecesses. Como se tivesses confiança suficiente em mim que garantisse que eu te daria o que pedisses. Perguntas-me se tenho alguma coisinha que te possa dar. Como assim, alguma coisinha? Como me provas com essa pergunta que mereces que eu dispense o que a mim foi dado por ser herdeira do património dos meus pais, que passam um número de horas fora e dentro de casa a trabalhar, a fazer coisas que às vezes não gostam. Podes provar que o facto de não teres o que eu tenho não o tens apesar dos esforços e vontade de fazer por o ter? Não será preguiça, aquele pecado pendurado na cruz que trazes ao peito, o que fazes quando me pedes o que não tens direito de pedir? Se eu te pedisse agora para me contares a história atrás da tua mão estendida, dispensavas o teu tempo para, no fim, eu decidir se sinto compaixão e antes disso se acredito? Vês na minha cara que o dinheiro que tenho, os artigos que a tua mente radiografa pelos contornos da minha mala, são-me dados a mim por direito legítimo e não me é a mim atribuído o direito de tos ceder? Pois são-me dados como investimento, pois já comprovei que lhes dou bom proveito e no futuro contribuirei de volta, quer seja directamente para os meus pais, quer seja para o resto da sociedade, à qual eles também pertencem. E tu, contribuis alguma coisa? Que fazes para merecer a minha confiança e o meu contributo? Agora já não há dinheiro para piedade. Os mecenas exigem amostras antes de dispensarem o trabalho árduo. Mostra-me o que fazes! Se concordar, ajudo.
25.10.09
Caminhos Cruzados
Sentada no lugar do passageiro, a odiar o facto de ter escolhido aquelas calças, não tirava delas os olhos por vergonha. Enquanto forçava um pensamento, procurava as palavras para o formar e tornar audível, não podia levantar os olhos das marcas pretas nas minhas pernas. Com a impaciência pelo meu próprio raciocínio, desfiz conscientemente o plástico que cobria os lenços de papel quase sem me aperceber. E os olhos cravados no perfil do meu olho esquerdo, a minha bochecha que esconde a metade visível dos meus lábios quando vista de lado, esses olhos mais pressão fazem. Esta pressa da consciencialização, a ânsia pelo conhecimento e definição do saber. A necessidade desta transmissão versus a necessidade daquele encobrimento. Porquê, fará sentido? É como devia ser? Devia ser alguma coisa?
Ofereces-me este caminho, que eu tomo por não querer a alternativa que é o caminho solitário. Esse é sombrio e nele correm assobios do vento. Ouço isto à entrada da bifurcação. No caminho pelo qual me levas, espreitam furos. E do outro lado, está o outro caminho. Diz ele, vem, podes sempre voltar. Eu ouço, mas não obedeço. Este caminho é mais confortável. Cedo à preguiça, espreitando sempre de lado para a independência. Mas a independência é tão triste, embora forte. Mas ainda não te dou a mão. Ainda não ma ofereceste. Vou oscilando entre os dois caminhos. Vou furando pelos buracos, mais apertados à medida que o caminho cresce. Espero só no último buraco ficar do lado mais iluminado e quentinho.
18.10.09
Regresso
Reabri este blog. Vamos a ver se uma nova fase se distingue tão claramente como eu me distingo de quem era quando o deixei sujeito ao pó.
Agradeço desde já todas as visitas.
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