13.12.10

Na Varanda

O vermelho escuro da seda no vestido dela quase fervilhava apesar do ar fresco da meia-noite na varanda. Ele fixara o olhar na linha invisível entre o pescoço e o ombro esquerdo dela. Estas pausas na conversação deixavam-no nervoso, sem palavras. Se tentasse usar o charme confiante que lhe garantia muitas noites sem solidão, conseguiria apenas balbuciar princípios de sílabas das palavras vazias insignificantes que funcionavam como magia nas mulheres supostamente confiantes, mas que não o quebravam porque ele sabia que a sua pele não era assim tão espessa e um toque suava a podia derreter. Mas estes lábios tão encarnados quanto o vestido, esta pele levemente beijada pelo sol e os caracóis saltitantes pendurados em espiral, caindo do apanhado improvisado no cimo da cabeça davam-lhe o ar de símbolo de paixão, calor estonteante, movimentos ondulatórios que ele sonhava só de olhar para a linha que invisivelmente separa o pescoço do ombro. Ela abafou uma palavra vazia com um sorriso leve. Pegou no copo dele e pousou-o junto ao dela, encostados à grade da varanda. A banda entrava num slow tão adequado que parecia cliché. Sempre na mesma calma enervante, ela continuava o movimento de largar o copo quase como uma coreografia mecanizada. Como se seguisse um livro de instruções que memorizara a pensar neste momento, tocou as mãos caídas ao longo do corpo dele levemente com as pontas dos dedos. Ele engoliu em seco, para controlar o arrepio que lhe correu do cóccix ao cume do cérebro. Os dedos subiram pelos braços. O olhar dele prendia-se agora no dela. Mas não era fixo. As pupilas não paravam. Entravam cada vez mais fundo e criavam um fio de aranha inquebrável. Chegando aos ombros, as mãos suaves deslizaram com força e agilidade pelo pescoço ate à nuca, continuando a prender os músculos dele e a libertá-los ao mesmo tempo. Com força, seguravam-se ao pescoço dele. E o sorriso de lábios rosado, calmo continuava a amordaçá-lo. Ela pegava nas mãos dele e pousava-as no fundo das costas, abaixo do fio que trazia à cinta. Dava um pequeno passo em frente, encaixando os pés intercalados com os dele. Respirava fundo, lentamente, e sorria. Provocava assim um sorriso equivalente nele. Ele já só imaginava como as suas mãos ficariam vistas do outro lado, agarrando mais mentalmente do que fisicamente o tecido firme e suave que a encarnava. Provavelmente sorria, imitava-a só, de tão embalado. Ela chegou-se mais perto, encostou o peito quase inteiramente descoberto ao dele e, com o mesmo sorriso, beijou-lhe os lábios. A tensão que antes lhe prendia os músculos agora bombeava o seu sangue para todas as extremidades do seu corpo. Sentia agora também o contraste da parede fria nas suas costas. Assim, de um impulso, agarrou os ombros dela e mergulhou nos seus lábios com grande paixão e vontade.