4.2.10

Análise fotográfica

Encontrei uma fotografia tua. Duma festa de faculdade, uma festa histórica que todos ainda relembram quando conhecem alguém que andou na mesma faculdade. Tinhas as bochechas coradas, de quem andava a divertir-se bem. Vê-se, porém, no teu olhar de menina abandonada, que foste contra os contos de fadas em que vives antes de adormecer. Esse copo na tua mão é um dos muitos que vais buscar, desde que te habituaram a bebê-los um atrás do outro. Começaste por dizer: Não, obrigada. Não bebo. Só uma cola, por favor. Mas vias como eles se riam e dançavam como se não houvesse amanhã e como se as coisas que faziam fossem insignificantes. Ias aprendendo que essa felicidade momentânea vale mais do que a admiração que antes pensavas teriam por ti se mantivesses a tua felicidade constante e inocente. Depois aprendeste que tinham inveja de conseguires sobreviver a todo o horror da sociedade. Junto com isso, foste aprendendo as leis do mundo e da vida. Com a idade, vêm a noção. Antes disso, só te importa o que vês nas novelas, e que antes se lia em livros. Historias de meninos e meninas que se apaixonam e vivem felizes para sempre. Agora, há livros sobre coisas tristes. Outros são manuais para aprender a fazer isto, aquilo e tudo mais. Mas os que lês são principalmente aqueles que falam dos homens e mulheres que fazem asneiras porque querem dinheiro e poder. Já ninguém acredita no amor. São egoístas. Aprenderam que o melhor caminho é o que nos leva a vingar na vida. E o que é vingar na vida afinal? Do que temos de nos vingar? Depois de fazermos milhares de notas e moedas, vamos então preocupar-nos com assuntos do coração? Criar a nossa história de amor? Na fotografia tinhas o braço à volta de alguém, mas tinha a cara tapada por outra pessoa que saltou para a frente da câmara no momento do disparo. Quem era? A maneira como ele ou ela te agarrava a cinta parece contar uma história. Foi alguém que conheceste nessa noite? Não me parece. Acho que era alguém que já tinha entrado na tua vida há bastante tempo. A força que exercia na curva da tua barriga transmite um conhecimento da tua vida já mais avançado. Talvez até tivesse uma participação bastante activa nela. Segura-te ali, acompanha-te com um copo na outra mão. Guarda-te de outros que possam querer fazer-te mal. Mas não te guarda do que lês, do que vês, do que te dizem. Não evita que as catástrofes mundiais e catástrofes locais (não desdenhando) te tragam lágrimas à noite, quando estás sozinha, a ler. Chegas da cozinha com o cocktail que aprendeste a fazer ontem à noite. Pergunto-te pela pessoa tapada na fotografia e dizes que não te lembras quem era. Estavas tão bêbeda nessa noite, que nem sabias como tinhas chegado à cama, nem sentiste a tua amiga a tirar-te os sapatos.