15.2.10

A Mecânica

Ele entrou na oficina. Chamou, ouviu ao fundo uma voz fina, mas rouca. "Entre, por favor. Estou aqui ao fundo." Entrou, passo a passo. Quase como se a multidão imaginária dum corso numa cerimónia religiosa o atrasasse. Espreitou, perguntou outra vez. Ouviu: "Aqui. Estou aqui dentro." "Ah. Boa tarde, É o senhor Moreira?" "A Senhora. Esta garagem é minha." Ele reparou então como uma rapariga com pouco menos de 25 anos estava dentro do seu carro. Ela continuava a ligar o cabo vermelho na entrada vermelha, o cabo preto na entrada preta enquanto respondia. Qual puzzle de crianças. Pontas de cabelo loiro saíam das manchas de óleo. A Sra. Moreira estava a trabalhar no rádio do carro que ele tinha deixado lá. Tão admirado de ver uma pele tão fresca já tão familiarizada com o interior de automóveis, quase se esquecia do que o tinha levado lá. "Está quase pronto. Demorou mais um bocado porque havia complicações que não eram visíveis à primeira. A entrada do rádio não correspondia ao cabo. É só mais uns minutos." "Oh sim - claro, não há problema. Pois, vim agora porque o seu funcionário tinha dito para vir depois de almoço. Eu espero, tenho tempo." Ela levantou os olhos por um segundo para olhar para ele e fez um sorriso sem dentes. Um sinal de simpatia que alguém lhe ensinara. Alguém com óculos redondos pousados a meio da cana do nariz; com rugas inteligentes na testa. Umas sobrancelhas quase invisíveis e um sorriso terno e meigo. Ele afastou-se um pouco. Olhou em volta para os outros carros ainda por concertar. Caminhou um pouco com as mãos nos bolsos pela garagem. Os carros recebiam a luz do sol do meio-dia pelas telhas de vidro, transparentes. Brilhavam ali parados. Como brilhariam igualmente numa estrada de montanha vazia. Os seus faróis redondos, quadrados, ovais igualavam olhos vazios. Os espelhos salientes, orelhinhas. Sentou-se num contentor de onde podia estudar a menina trabalhadora e imaginou a sua história.

1 comentário:

Filipe Reis disse...

Ele imaginou a sua juventude provavelmente.
E a sra. moreira fe-lo lembrar de uma das suas conquistas e ele voutou a ficar nostálgico porque tinha tempo de sobra e deixou-se ficar embalado pelo sol.

Gostei, darling.

Um beijinho