Acordou com o despertador de plástico, com um dos apoios partidos, aos berros que ecoavam no apartamento vazio. O telemóvel ficara sem bateria e precisava de acordar para uma entrevista de emprego ao fim da tarde.
Levantou-se, abriu os cortinados, casa de banho, lavar os dentes, duche, quarto, armário, calças, outras calças menos apertadas, camisa, botas, casaco, mala, porta, café.
Pediu uma meia-de-leite e uma torrada. Seguiu para o estacionamento, ligou o carro, arrancou e mudou de CD sem ver. O escritório ficava no centro da cidade. Cada vez era mais difícil encontrar estacionamento. Cada vez as pessoas eram mais impacientes nas entradas e saídas dos parques pagos. Evolui a cidade, retrocedem as mentes.
Subiu no elevador, esperou meia hora na entrada do escritório e foi chamada.
“Quais são os seus passa-tempos? O que gosta de fazer?”
“Eu tenho várias ocupações: faço ginástica rítmica, dou aulas de respiração de yoga para idosos, e aos fins-de-semana costumo orientar um grupo de escuteiros, mas a minha carreira concentra-se na coordenação de recursos humanos em hotéis.”
“Sendo assim, e observando na sua carta de candidatura espontânea, está principalmente interessada no cargo de Gestor do Departamento de Recursos Humanos.”
A sua mente vagueou para a paisagem atrás da cabeça da entrevistadora. Via-se terraços de prédios e logótipos das empresas a quem pertenciam. Atrás, a silhueta azul pastel das montanhas fundia-se com o céu nublado.
“Sendo assim, conte com o nosso contacto para a informar dos desenvolvimentos relativos à candidatura ao cargo. Em nome da Turiskunft, agradeço o interesse. Espero falar consigo em breve. Tenha uma boa tarde.”
Despediu-se da Dra. Milena com um sorriso enquanto lhe apertava a mão, saiu. Corredor, vira à direita, elevador ao fundo. -2 G, colunas azuis. Roxo, laranja, amarelo, azul, aí está.
Apetecia-lhe ver o mar. Mas ficava a hora e meia de carro. Mar. Quando deu por ela, tinha feito o percurso de volta para casa mecanicamente. E o mar? Fica para outro dia. Estava a um bloco da entrada do seu prédio. Viu um rapaz que estava no café, de manhã. Reparou que ele olhava pela janela para um grupo de jovens da sua idade na esplanada, tão entretidos com uma criança a brincar que nem sentiram o seu olhar a seguir os seus sorrisos irritantes, nem os seus ouvidos a arder de comichão com as gargalhadas. Ele agora caminhava cabisbaixo. Casaco verde lodo, as calças de um bege ou cinzento, discretas, que quase o camuflavam nos prédios monótonos. O jornal debaixo do braço. Que vida levaria esse fantasma da rejeição.
Olha para a frente e trava a fundo. Fica a 5 centímetros do carro que se preparava para virar à esquerda. Dá graças ao engenheiro mecânico pelo design ultra-seguro. Primeira, embraiagem, acelerar, seguir viagem. A música cinzenta abrandava-lhe o coração. Subiu a rua, parou nos semáforos, viu o céu amarelo, atravessado pelas nuvens cinzentas do fim de tarde, fez a curva, fez outra e na terceira largou o volante, atravessou a cerca, e bateu contra uma árvore.
O telemóvel tocava. Era a melhor amiga, preocupada porque ficara de a ir buscar para jantar e ela não estava. Um agente da PSP atendeu, e depois de se identificar, acalmou-a e indicou o local do acidente, pedindo também o contacto dos pais para os informar do óbito.
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